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Na América Latina, a população afrodescendente tem sido sistematicamente invisibilizada nos espaços decisórios, bem como no desenho de políticas públicas que valorizam sua contribuição para a economia, a sociedade e o Estado. De acordo com as últimas medições da CEPAL de 2020, aproximadamente 21% da população latino-americana é afrodescendente[1]. Os países com maior percentual de população afro são Haiti (95,5%), Brasil (50,9%), seguidos de Cuba (35,9%), Colômbia, Costa Rica, Equador, Panamá e República Dominicana, que representam entre 7% e 10 % da população.

Segundo a CEPAL, é necessário que os Estados adotem medidas para “combater o poder que um grupo social pode ter sobre outros dentro das diferenciações e encontros culturais assimétricos que a globalização determina” (2020), e isso inclui a participação política das comunidades. Por isso é relevante para a Pulsante promover o trabalho que as organizações afrodescendentes têm em sua agenda de participação e visibilidade, como forma de reduzir as desigualdades.

Na Pulsante, trabalhamos com três organizações que reivindicam a identidade afrodescendente como seu foco principal de participação nas políticas públicas e estão mudando a história da América; Afrochingonas no México, Ashanti no Peru e Mulheres Negras Decidem (MDD) no Brasil.

Para enfrentar a invisibilidade, Afrochingonas abriu diálogos e aumentou sua presença na mídia através de seu podcast, este trabalho que é ouvido na América e na Europa, conseguiu abrir espaços para outras mídias que querem ouvi-los, eles foram publicados na revista Vogue, onde atingiram um público massivo que comumente está desconectado dos problemas e contribuições da cultura afro para a América Latina. Nesses espaços refletem sobre os direitos dos afrodescendentes, questionam os espaços que privilegiaram a lógica capitalista branca e mostram como são as experiências das mulheres afrodescendentes em seu cotidiana. O valor de ouvir essas experiências permite que as pessoas se conscientizem, mas sobretudo reflitam e questionem como podem vivenciar as estruturas raciais na dinâmica familiar, social e de trabalho, para modificá-las. Os Afrochingonas foram convidados duas vezes, para o Festival Afrolatinx no museu Molaa, na Califórnia, para compartilhar suas experiências e fazer suas vozes ecoarem muito além do México.

Na região andina, Ashanti Peru é uma organização que trabalha com peruanos afrodescendentes na defesa de seus direitos sociais, econômicos e culturais, com base na participação e advocacia nos espaços de comunicação e políticos. O trabalho de Ashanti Peru é uma ferramenta para a formação de jovens líderes afrodescendentes, que já formou mais de 600 jovens afro-peruanos e no qual 180 jovens conseguiram influenciar os espaços políticos. Como parte dos cursos de capacitação que foram elaborados e acompanhados pela Secretaria Nacional da Juventude, o Município Metropolitano de Lima, o Júri Nacional Eleitoral e a Organização dos Estados Americanos (OEA) no desenho dos cursos que serão desenvolvidos. Os jovens participantes do programa estão exercendo sua liderança ao replicar o que aprenderam para outras organizações sociais e juvenis, conscientizando sobre a importância da inclusão e da participação cidadã afro-peruana, fortalecendo a sociedade civil e os compromissos com as políticas interculturais. Este movimento juvenil afro-peruano está trabalhando em estratégias para influenciar sua agenda de direitos nas próximas comissões eleitorais regionais e municipais de 2022. Esses espaços permitem replicar as formas de trabalho de Ashanti Peru e influenciar políticas públicas que podem escalar na região, inspirar outros países a fazerem o mesmo. O trabalho da Ashanti Peru começou em 2004 e reúne mais de 500 voluntários para que as políticas sejam inclusivas e democráticas.

Por outro lado, Mulheres Negras Decidem no Brasil promove a agenda liderada por mulheres negras na política, para aumentar a representatividade nas instâncias de poder e tomada de decisão. Seu trabalho é acompanhar e treinar mulheres negras que buscam um cargo de eleição popular dentro da política institucional do Brasil. Nas disputas políticas há uma violência enorme contra as mulheres, e o MND trabalha nessa luta. Sua estratégia não é apoiar diretamente nenhuma candidatura, mas sim a representatividade, para que haja mais mulheres negras em cargos de eleição popular. No Brasil, 54% da população é negra, sendo 28% mulheres. No Congresso Nacional, das 513 pessoas que o compõem, apenas 10 são mulheres negras. Para o MND é importante consolidar alianças estratégicas com outros movimentos e organizações de mulheres negras, como parte de sua narrativa para fortalecer as respostas à crise política brasileira.

Uma das organizações que promove a visibilidade e a participação cidadã da juventude afro é a Corporação de Profissionais Construindo a Cidadania (CPCC), que desde 2013 trabalha em processos de participação e advocacia no Caribe colombiano. Seus esforços envolvem: realização de festivais de teatro e audiovisual para jovens; laboratórios audiovisuais; bem como estratégias de mobilização e incidência de jovens na atualização do direito.

Esses exemplos de força, coragem e determinação são fonte de inspiração para a Pulsante, onde acreditamos que uma América Latina mais justa e representativa é possível. Para o programa, apoiar grupos que compartilham agendas torna-se uma forma de abordar questões de forma colaborativa em vários países, contribuindo para mudanças sistêmicas, profundas e duradouras. O trabalho das organizações faz parte de uma luta histórica para recuperar os espaços jurídicos de forma muito mais visível e latente.

 

 

 

Referencia:

Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL)/Fondo de Población de las

Naciones Unidas (UNFPA), “Afrodescendientes y la matriz de la desigualdad social en América Latina: retos para la inclusión”, Documentos de Proyectos (LC/PUB.2020/14), Santiago, 2020

 

[1] Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL)/Fondo de Población de las

Naciones Unidas (UNFPA), “Afrodescendientes y la matriz de la desigualdad social en América Latina: retos para la inclusión”,

Documentos de Proyectos (LC/PUB.2020/14), Santiago, 2020. Disponível em: https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/46191/4/S2000226_es.pdf